← Blog

Mercado e Tendências

Perfeito demais para ser verdade

Por Henrique Zorzi · 15 de agosto de 2026 · 12 min

Perfeito demais para ser verdade

Sade voltou, a câmera de filme virou acessório, o carro sem tela virou objeto de desejo. Mas atenção, publicitários: não é saudade. É outra coisa, e ela muda o jeito de falar com quem tem menos de trinta.

Comecemos pela cena. Sábado à tarde, Santa Cecília, São Paulo. O FFV Café, que é cafeteria, loja e laboratório de revelação no mesmo endereço, está cheio. Público majoritariamente feminino, entre 18 e 25 anos, cardápio impresso em papel fotográfico, vinis na parede. Todo mundo fotografando o lugar com o celular.

Guarde essa última frase. Ela explica o artigo inteiro.

Os números, e eles são grandes

Em 2025 o vinil passou de US$ 1 bilhão de faturamento nos Estados Unidos pela primeira vez neste século, décimo nono ano consecutivo de alta, segundo a RIAA. Foram 46,8 milhões de unidades contra 29,5 milhões de CDs. Enquanto isso, o streaming fez US$ 9,47 bilhões. Ou seja: o vinil cresce, e continua sendo o suspiro sentimental de uma indústria que vive de assinatura.

No Brasil o desenho é o mesmo, com sotaque. A Pró-Música Brasil apurou alta de 14% no mercado fonográfico em 2025, com o streaming em R$ 3,4 bilhões, 87% do total. As vendas físicas subiram 25,6%, puxadas pelo vinil, e representam menos de 1% da receita. Menos de um por cento. O bolachão é, estatisticamente, um detalhe. Culturalmente, é a manchete.

Agora o dado que quase ninguém publica. A Luminate descobriu que metade dos americanos que compraram vinil nos últimos doze meses não tem toca-discos. Metade.

Repita comigo: eles compram o disco para olhar.

Sade, ou o algoritmo de terno de linho

Ninguém previu. Em 2025, a mulher mais elegante da música pop dos anos 80 tomou o TikTok. Nasceu a "Sade Girl", batom escuro, base glowy, blush terracota, cabelo puxado, ouro discreto. Nasceu o "Smooth Operator strut", que não é coreografia, é jeito de andar. E a Essence dedicou matéria de beleza ao assunto.

O gatilho? Em novembro de 2024 Sade lançou "Young Lion", primeira música inédita em catorze anos, dedicada ao filho Izaak, no álbum beneficente TRANSA. Discretíssima, como ela. Bastou.

E aqui mora a ironia deliciosa. A artista que virou símbolo de calma, mistério e recusa à exposição foi redescoberta pelo mecanismo mais barulhento e menos misterioso já inventado. Sade não voltou. O algoritmo a trouxe de volta, porque detectou que a geração mais exausta da história queria justamente o oposto do que o algoritmo entrega.

Isso não é nostalgia. Nenhuma menina de 19 anos em Porto Alegre tem saudade de 1985. Ela tem cansaço de 2026.

O filme que ninguém busca no laboratório

A fotografia analógica é o caso mais elegante e mais revelador do movimento.

Em 2025, 35% dos 42 milhões de usuários ativos de câmeras de filme no mundo tinham entre 18 e 30 anos. As buscas por fotografia analógica cresceram 41% no ano anterior. Em abril de 2026, Los Angeles sediou a primeira AnalogCon, organizada pelo Los Angeles Center of Photography, dois dias de exposições, palestras e laboratórios lotados. A Kodak, que em agosto de 2025 admitiu risco de continuidade nos seus balanços, virou nome de culto entre universitários americanos.

No Brasil, o movimento tem endereço, feira e preço. Revelação com digitalização sai entre R$ 40 e R$ 50. Lojas como a Frame.36, criada em 2025 por um professor de fotografia de Caxias do Sul, vendem filme, câmera usada e até químico de revelação.

E então vem a reportagem do Terra que estraga a poesia de todo mundo, e por isso mesmo é a melhor coisa escrita sobre o assunto: uma parte considerável desses jovens revela o filme, recebe o arquivo digitalizado e nunca mais volta para buscar o negativo. Uma fotógrafa de 21 anos admitiu ter abandonado filmes esquecidos no laboratório. Palavras dela, em resumo: a gente diz que quer o analógico, mas quer receber o digital.

Perfeito. Está tudo ali.

O que essa geração quer não é o processo químico. É a prova visual de que existiu um processo. O grão, o vazamento de luz, o enquadramento torto, a cor que erra. A CNN Brasil resumiu bem ao ouvir um especialista dizer que a foto de celular sai excelente e chapada demais, perfeita demais.

Perfeição virou sinônimo de suspeita. Anote isso, é o insight comercial do ano.

O carro que não é antigo, é analógico

Aqui, cuidado com a lenda urbana.

Sim, o antigomobilismo brasileiro é um mercado sério, algo em torno de R$ 32 bilhões por ano segundo estudo encomendado pela FIVA, com o Encontro de Águas de Lindóia reunindo cerca de 1.500 veículos e público estimado em 530 mil pessoas em 2025. Sim, a GM lançou o programa Vintage, restaurando Opala, Monza, Kadett e Chevette, e dois Opalas saíram por R$ 550 mil cada.

Mas a Hagerty, que é a seguradora que enxerga o mercado americano de dentro, mostra que a participação de millennials e Gen Z nas cotações caiu a partir de 2025, enquanto a dos boomers subiu cinco pontos. A Gen Z é cerca de 10% do mercado. E quando ela entra, não procura o clássico de museu: procura o esportivo japonês dos anos 90, o Boxster de 2003, o Evo, os carros da própria infância. Sessenta por cento dos jovens ouvidos pela Hagerty dizem querer ter um carro de coleção. O que eles querem é dirigir.

Ou seja, não é apreço pelo antigo. É apreço pelo mecânico. Pelo volante que responde, pelo painel sem menu, pela máquina que não pede atualização de software. Trocando em miúdos: eles não querem o passado, querem o controle.

E o que isso tudo tem a ver com o seu briefing

Tudo. E o timing é agora.

"Slop" foi eleita a palavra do ano de 2025 pelo Merriam-Webster, o termo para a papa gerada por inteligência artificial que escorreu para dentro de tudo, do feed ao anúncio imobiliário. Em junho de 2026, uma pesquisa Harris feita com as 4As e a Infillion mostrou que 78% dos consumidores acham que a IA deixa o anúncio menos autêntico, 73% confiam menos num anúncio que suspeitam ser feito por máquina e 63% ficam menos propensos a comprar dessa marca. A iHeartMedia respondeu criando um selo: conteúdo garantidamente humano.

Enquanto isso, a Uniqlo mantém revista impressa. Chanel, Dior e Armani lançaram as suas. A i-D voltou às bancas, a Nylon voltou a imprimir, feiras de zine se multiplicam de Nova York a Milão.

Junte as peças. O disco sem vitrola, o negativo abandonado, o filtro que imita o erro, a revista que a marca de luxo imprime sabendo que ninguém precisa dela. Todos apontam para a mesma coisa: em um ambiente saturado de conteúdo infinito, barato e sintético, o que ganha valor é aquilo que custa alguma coisa para existir.

Escassez, esforço e imperfeição viraram sinais de verdade.

Cinco regras práticas, para levar para a reunião de segunda

Um. Imperfeição de verdade, não filtro de imperfeição. Um preset de grão aplicado sobre uma foto de banco de imagens é a coisa mais 2019 do mundo. Fotografe de verdade, com luz difícil, com gente real, e deixe o defeito no corte final.

Dois. Objeto físico é mídia, não brinde. Uma revista de marca, um zine, um catálogo impresso ou um vinil de edição limitada não competem por atenção no feed, e é exatamente por isso que funcionam. Custam caro por peça, entregam CPM ridículo e constroem o que campanha de performance não constrói.

Três. Ritual vende mais que produto. O que seduz no filme fotográfico é a espera. O que seduz no vinil é o gesto de virar o lado. Se a sua marca consegue instalar um pequeno ritual na vida do cliente, ela ganha permanência.

Quatro. Não anuncie a máquina. Use IA à vontade na produção, na operação, no teste, na personalização. Só não coloque isso no cartaz. Nenhuma marca ganhou preferência dizendo que economizou no criativo.

Cinco. E a mais difícil: entenda que o analógico aqui é linguagem, não canal. Esse público vive no digital. Ele descobriu Sade no TikTok, comprou a câmera no Mercado Livre e fotografou o café analógico com o iPhone. Vender "desconexão" para ele é ingenuidade. O que se vende é textura.

O fecho

A geração que compra disco sem ter vitrola não está fugindo da tecnologia. Ela está fazendo uma coisa muito mais sofisticada, e muito mais interessante para quem trabalha com marca: está usando objetos analógicos como prova de autenticidade dentro de um ambiente que perdeu a capacidade de provar qualquer coisa.

O disco na parede diz "eu tenho gosto". A foto com grão diz "eu estava lá". O carro sem tela diz "eu sei fazer alguma coisa com as mãos".

São todas declarações de identidade. E identidade, no fim, é o único produto que a publicidade sempre vendeu.

Smooth operator, afinal.

Fontes: RIAA, Year-End Recorded Music Revenue Report 2025. Pró-Música Brasil, via Agência Brasil, março de 2026. Luminate, Top Entertainment Trends. The Conversation e Fortune sobre fotografia analógica, 2026. CNBC sobre Kodak, agosto de 2025. Exame e Terra sobre o mercado analógico brasileiro. Hagerty Insider, mercado de carros de coleção 2025 e 2026. CNN Brasil sobre antigomobilismo. Harris Poll com 4As e Infillion, junho de 2026. Merriam-Webster, palavra do ano 2025.